Em outubro de 2020, escolhi o título “Brasília nunca será mais do mesmo” para meu primeiro artigo na Revista 15.47, mas apenas ontem pude compreender a dimensão e o alcance exatos desse conceito.

Foi durante a exposição “Brasília, enfim”, do artista Christus Nóbrega, que reavaliei todo o conteúdo dos livros já lidos e imagens outrora vistas a respeito da construção da Capital da República. Com uma proposta instigante, Christus subverteu a conhecida e linear fronteira tempo/espaço para nos apresentar uma realidade criada especialmente para a exposição, perfeitamente factível em sua dimensão estética, ainda que hipotética de fato.

A surpresa e a alegria ao conhecer o que fora preparado pelo artista assomaram-se tão intensas que me esquivarei da indelicadeza de antecipar os pormenores dessa exposição, resultado de muita pesquisa e inspiração divina, por certo.

Me veio à memória o artigo de Philippe Quéau, “O tempo virtual”, de 1996, no qual o autor passa em revista as diversas estruturas do objeto artístico, onde o lugar do virtual, no qual se insere, não é apenas “espaço”, mas a imagem que produz uma nova relação entre o gestual e o conceitual.
Tema que se assentou no topo das discussões sobre arte contemporânea, o uso de Inteligência Artificial e ambiente tecnológico na construção de uma nova linguagem pictórica já é parte de nossa realidade. O diferencial está no modo de transmutar essa ferramenta inerme em beleza, fundamentação teórica, sutileza e afeto, assim como nos mostrou Christus.

Em determinado instante, durante a exposição, pedi contas ao meu próprio subconsciente: Que lugar é esse em Brasília que ainda não conheço? É bem possível ser uma concepção digna da genialidade niemeyreana, mas como pôde fugir-me aos escrutínios em 51 anos de existência?
São os lugares que a inventividade humana coloca à nossa disposição para acalentarmos nossas memórias.
Sem dúvidas, uma belíssima homenagem.

*Segundo soube, estão programadas visitas guiadas e rodas de conversa. Sugiro fortemente que compareçam.

Todos os direitos reservados a Patrícia Yunes