Segundas-feiras costumam ser amaldiçoadas para uma boa parte das pessoas. A rotina, que com o início da semana dá seus primeiros passos, surge, cambaleante e modorrenta, ante os imperativos dos compromissos que muitos cumprem como autômatos dos novos tempos.
Felizmente, contrariando os prognósticos, despertei hoje com a viva e gratificante sensação de ter visitado ontem uma das melhores exposições já vistas em quase 30 anos de pesquisas em artes.
Creio que muitos devam ter escutado ou lido algo a respeito de “Brasília, enfim” do artista Christus Nóbrega. Sequer precisei consultar os búzios e outros oráculos para saber que grande parte do sucesso da exposição está vinculado à utilização da I. Artificial na concepção e execução em parcela significativa do projeto. São inequívocos os espetaculares resultados aos quais o artista chegou, traduzidos em imagens surpreendentes que serviram, desde a vernissage, como headline irresistível e pauta atualíssima aos ditos meios de comunicação.
Mas o que verdadeiramente transmutou, como um passe de mágica, minha segunda-feira em sábado, foram as questões: com quais sortilégios teria o artista habilmente correlacionado o profano e o sagrado, a história factual e investigativa aos voos criativos?
É certo que o mérito está nas mãos que executam comandos e teclas, na mente arguta criadora do discurso teórico que, por sua vez, deu vida a imagens e textos sofisticados. E aqui terei de confessar, ante os livros sagrados, que os textos explicativos capturaram meu coração como se as mandingas que trazem o amor fossem reais. E é bom que se diga, todo o processo que envolveu a exposição foi conduzido com tamanha sutileza e perspicácia que ousaria inferir que o artista, aproveitando-se de sua figura discreta e polida, admirava-se de nós, em silêncio e contida malícia. Ali estávamos, seres embasbacados, cujas expressões descoordenadas de espanto e alegria, denunciavam nossa voluntária rendição às surpresas que desvendávamos a cada novo passo.
Mais uma vez, recuso-me a informar os pormenores da exposição “Brasília, enfim”. Sugiro que vá ao menos a três dos quatro espaços onde ocorrem as exposições. Estão conectados e interdependentes.